Caso anonimizado fevereiro de 2024, 7 min de leitura

Previsão de vendas quando a empresa compra empresas: o que fizemos para errar cada vez menos

Caso real com dados anonimizados: o cliente não é identificado e os números foram arredondados. Publicado sem informações que permitam reconstruir resultados financeiros da empresa.

Uma consultoria de software dos Estados Unidos crescia de dois jeitos ao mesmo tempo: vendendo projetos novos e comprando outras empresas, em países diferentes. Marcelo liderou a área de Sales Operations por 14 meses, com reporte ao CRO. Uma das cobranças mais diretas da liderança era simples de dizer e difícil de cumprir: acertar a previsão de vendas.

Por que a previsão errava

Cada aquisição trazia três coisas que bagunçavam a conta:

  • Outro CRM, ou nenhum. Parte do pipeline das empresas compradas vivia em planilhas e na cabeça dos sócios.
  • Outra definição de estágio. "Proposta enviada" significava coisas diferentes em cada operação, e a mesma probabilidade era aplicada a oportunidades muito diferentes.
  • Outra moeda e outro ritmo. Times em vários países, com ciclos de venda e sazonalidades próprias.

Somava-se a isso uma questão de natureza da receita. A previsão misturava linhas que se comportam de forma muito diferente.

Oscilação mês a mês da previsão anual, por linha de receita (coeficiente de variação)
Serviços14%
Licenças41%
Marketplace41%

Calculado sobre a previsão mensal do ano. Serviços respondiam por mais de 90% do total; licenças e marketplace variavam até 4 vezes entre o melhor e o pior mês.

Prever tudo com a mesma régua fazia o ruído das linhas pequenas contaminar a leitura da linha grande.

O que fizemos

  1. Um dicionário único de pipeline. Mesmos estágios, com critérios de entrada e saída por escrito, para todas as operações, inclusive as recém-compradas. Oportunidade sem o critério cumprido não avança de estágio.
  2. Tudo no mesmo CRM. Migramos os pipelines das empresas adquiridas para o HubSpot, com campos obrigatórios de valor, moeda, data esperada e responsável. O que não está no CRM não entra na previsão.
  3. Categorias de previsão, não só probabilidades. Cada oportunidade passou a ter uma categoria declarada pelo vendedor e revisada pelo gestor: compromisso, melhor cenário ou pipeline. A probabilidade automática por estágio virou referência, não verdade.
  4. Linhas separadas. Serviços, licenças e marketplace ganharam previsões próprias. Para as linhas voláteis, passamos a trabalhar com faixas, e não com um número só.
  5. Base de conhecimento de vendas. Casos, propostas e argumentos organizados para que os times das empresas compradas vendessem o portfólio inteiro, não só o que já vendiam antes.

QBRs: a receita que estava na base

A maior parte da receita de uma consultoria vem de clientes que já compram dela. Mesmo assim, a expansão desses clientes entrava na previsão quase por intuição. Implantamos revisões trimestrais de negócio, as QBRs, com os principais clientes, conduzidas pelos times de vendas e de parceiros.

  • Roteiro fixo. Resultados do trimestre, satisfação, próximos objetivos do cliente e onde a consultoria pode ajudar.
  • Saída obrigatória no CRM. Toda QBR gera oportunidades de expansão, renovação ou riscos registrados, com dono e data.
  • Plano de conta. Os principais clientes ganharam modelos de desenvolvimento de conta, revistos a cada QBR.

Com isso, a receita da base deixou de ser um palpite e passou a aparecer no pipeline com a mesma disciplina das vendas novas. Os riscos de renovação também passaram a aparecer antes.

O ritual

Painéis para o C-level com a previsão por categoria, linha e região, revistos numa reunião semanal curta de pipeline e num fechamento mensal. A pergunta da reunião deixou de ser "quanto vamos vender?" e passou a ser "o que mudou desde a semana passada, e por quê?".

O que levar daqui

  1. Em aquisições, integre o pipeline antes de integrar a previsão. Sem definição comum de estágio, somar números é somar opiniões.
  2. Separe linhas de receita com comportamentos diferentes. A linha volátil merece uma faixa, não um número.
  3. Peça ao vendedor uma categoria de previsão e cobre a coerência dela ao longo das semanas.
  4. Faça da QBR uma fonte de pipeline. Se a reunião com o cliente não gera nada no CRM, ela não ajuda a prever.

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